Amarcord.
Outro dia me lembrei de minha juventude, quando costumava acampar na Curva do Sargento para assistir as "24 Horas de Interlagos". Já não sou jovem, não acampo mais para assistir corridas, a Curva do Sargento foi aterrada e nem me lembro quando foi disputada a última edição das "24 Horas". E o Autódromo de Interlagos, que era uma pista quase perfeita, tanto para pilotos como para o público, transformou-se num circuito burocrático para atender aos interesses da televisão e da FIA. O circuito antigo, com sete quilômetros e meio (hoje tem quatro) era um desafio para os pilotos, com uma grande variedade de dificuldades e com uma singularidade em relação às outras pistas em todo o mundo: de qualquer lugar que o público estivesse, a visibilidade seria de quase oitenta por cento das retas e curvas. Da arquibancada principal, na linha de chegada, enxergava-se a Curva Um, o Retão inteiro, a Junção, a Ferradura, todo o percurso até a Subida do Lago e o início da Reta Oposta e esta inteira, só perdendo visibilidade para a Curva do Laranja. Depois se avistava a saída do Sargento, a Curva do Sol, a Curva do S, Pinheirinho e Bico de Pato e o início do Mergulho. Via-se também a metade final da Subida e toda a Reta do Box. Eu costumava acampar na Curva do Sargento, onde só não tinha visibilidade da Junção até a Curva Um. No entanto, enxergava-se claramente todo o miolo da pista. Lembro-me de grandes "pegas" entre o Catarino Andreatta e Camilo Cristóforo, chamado "O Lobo do Canindé", com suas carreteras envenenadíssimas e montadas sobre chassis de velhos Fords e Chevrolets. Não havia cintos de segurança e nem se falava em "cock pits" e lembro-se que o capacete do velho Catarino (tive um igual) era como que um boné de fibra e o restante da proteção da nuca, ouvidos e queixo era apenas de couro. Pelo Retão de minha memória passam voando Bird Clemente e Luiz Pereira Bueno, da Equipe Willys; os Irmãos Émerson e Wilson Fittipaldi e seus Porsches número setenta e sete; Emílio Zambello, sempre levando bronca de Piero Gancia, proprietário das Alfas, por tentar tirar dos carros mais do que eles podiam dar... Era uma época romântica e o amadorismo dava a tônica dessas corridas, com pilotos aficcionados, que preparavam suas baratas durante a semana, não raro em suas próprias oficinas, para poder correr no domingo em busca apenas da satisfação pessoal e um lugar no pódio. Tudo isso me veio à mente enquanto assistia "Amarcord", de Federico Fellini. O título é tirado do dialeto napolitano que, em italiano significa "io mi ricordo". O título do presente é uma homenagem ao filme e uma afirmação de que "anch'io mi ricordo".
Escrito por Paulo às 14h43
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|