Desafiando o perigo.
Antes de mais nada, antecipando-me aos mais apressadinhos, quero reafirmar minha consternação pelo acidente sofrido pelo piloto Felipe Massa e somar meus fluidos positivos, seja lá o que isso possa significar, aos de todos os brasileiros, torcendo por sua pronta e completa recuperação. No entanto, não poderia deixar de observar que o perigo é uma constante na vida dos pilotos, que são pagos - e muito bem pagos - para desafiar a probabilidade da ocorrência desses sinistros. É uma opção de vida que não é imposta a ninguém e que é assumida por existir uma relação custo/benefício que interessa a essas pessoas. O público que frequenta os autódromos e aqueles que grudam na televisão domingo sim, domingo não, por sua vez, só o fazem para ver os pilotos correrem riscos e quanto maiores, mais admirados. É uma verdadeira catarse nacional, que nos transforma por poucas horas em Massas, Sennas, Piquets ou Fittipaldis sem que tenhamos de nos arriscar. O público vibra com as ultrapassagens perigosas, com os inevitáveis choques entre os bólidos e - porque não? - com os acidentes previsíveis que ocorrem de tempos em tempos. Se as corridas não contivessem em si o germe da possibilidade de acidentes cada vez mais severos o interesse do público iria minguar, a audiência diminuiria gradativamente e os elevados patrocínios e salários deixariam de existir. Imaginem uma corrida de Fórmula I em que as baratas não pudessem ultrapassar os cem quilômetros por hora. Tanto pilotos quanto o público morreriam de tédio! Por essa razão sou obrigado a contestar aqueles que falam da "fatalidade" de acidentes como o de Ayrton Senna e agora de Felipe Massa, usando essa expressão como sinônima de imprevisibilidade. E esses acidentes, que se repetem com insistente regularidade não vão impedir que outros mais, cada vez mais sérios continuem acontecendo no futuro, nem que seja pelo simples desejo de superação pessoal dos pilotos. Há alguns anos dois alpinistas brasileiros resolveram desafiar a escalada do Aconcágua pela face mais difícil e perigosa e acabaram perdendo a vida na infeliz tentativa. Não acho, no entanto, que devamos chorar por eles, pois eles procuraram desafiar expontaneamente os limites de suas possibilidades físicas e encontraram o que buscavam ansiosamente, pagando o preço que sua aventura lhes impunha. Ninguém é obrigado a ser piloto, ou alpinista. A ninguém é imposto navegar sozinho até a Antártida ou megulhar no meio de tubarões. E quem realiza essas proezas ou maluquices está disposto a pagar o preço de sua ousadia, seja por mero capricho pessoal ou em busca do pote de ouro que se encontra no final desse arco-íris de riscos e perigos. Dito isso, reitero minha esperança de que Felipe Massa se recupere totalmente, mas não posso deixar de constatar que ele encontrou o que sempre buscou. Perdão pela dura e amarga sinceridade.
Escrito por Paulo às 16h30
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